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LBV | Piauí

26/06/2017 11:49

Quem tem ideal não envelhece | Paiva Netto

Achei, nos meus alfarrábios, texto que publiquei, em 3 de maio de 1987, na
Folha de S. Paulo, dedicado à Melhor Idade:
Na Religião de Deus, do Cristo e do Espírito Santo procuramos sempre
aliar a energia dadivosa dos mais novos ao patrimônio da experiência dos mais
idosos. E isto se consegue pela influência do Amor Fraterno, que não é velho nem novo;
é eterno porque é Deus. O Pai Celestial é Amor, consoante definiu João, em sua Primeira
Epístola, 4:8. E completava Zarur: “E nada existe fora desse Amor”. Por isso, quem tem
ideal não envelhece. O corpo pode baquear. Mas o Espírito está sempre alerta. Jovem é
aquele que não perdeu o Ideal no Bem.

Que é novo, que é o antigo, afinal? Nada! Immanuel Kant (1724-1804), o grande filósofo
alemão, autor de Crítica da Razão Pura, afirmava, mutatis mutandis, que o tempo é a grande
mentira dos homens. Portanto, acima de tempo-espaço e seus limites. Real é a Vida, que é eterna.
Sidónio Muralha, poeta português que se radicou no Brasil, onde viveu até o seu falecimento
em 1982, louvou essa eternidade do valor intemporal no seu belíssimo “Cântico à Velhice”: “(...)
É este o cântico/ Dedicado ao que chamam/de velhice/ que é a infância/ lançada mais longe,/
onde o horizonte/ se rasga e alarga (...)”.

A composição poética, a recebemos de Dona Helen Anne Butler Muralha, esposa do saudoso poeta,
que gentilmente também nos cedeu a foto do casal. Vamos, então, ao esforço bem-sucedido de
Muralha, por desmistificar o tempo, esse fantasma que atormenta o homem-ser-restrito, até que
um dia ele perceba que, na verdade, é Espírito Eterno, pairando acima de todos os grilhões
da carne perecível.
 
“Cântico à Velhice”

“Minha velha Portuguesa/ com o teu rosto marcado,/ mas sem medo da vida/ (e ainda menos da morte),/
atira o teu cajado contra o tempo/ que passa e não tem presente,/ porque na segunda sílaba do presente/
já passou a ser passado.

“Atira teu cajado, companheira,/ contra esse tempo efémero/ que não consegue apagar-nos.
“Nós corremos no sangue/ das novas gerações/ e os velhos são as crianças/ do futuro, /as
primaveras que vieram dos invernos,/ as flores que rebentam,/ que explodem da terra,/ como tu,/
minha querida portuguesa,/ que em cada ruga que tens/ existe um poema escrito/ tão grande e tão
profundo/ que é um cântico à velhice.
“Sim, um cântico sem fronteiras,/ porque os velhos/ têm asas imensas/ que voam no sentido contrário,/
desafiando o espaço/ como quem roça o mar,/ mergulha para sempre/ mas deixa, perto do sol,/ uma
mensagem salgada.

“Velha portuguesa/ feita de oceano/ como todos nós,/ que somos navios,/ barcos, canoas,/ remos
e lemos,/ quilhas,/ algas e maresia,/ mastros de audácia/ que derrotam tempestades,/ caravelas,
descobertas,/ velha portuguesa/ descobre que o tempo/ tem medo do teu cajado/ e desanca as horas,/
e desaba as horas,/ e desaba os relógios/ que são acidentes/indecentemente formais.
“É este o cântico/ dedicado ao que chamam/ de velhice/ que é a infância/ lançada mais longe,/
onde o horizonte/se rasga e alarga.

“Não esqueças, portuguesa amiga,/ de vergastares o tempo/com o teu cajado.”
 

José de Paiva Netto ― Jornalista, radialista e escritor.
paivanetto@lbv.org.brwww.boavontade.com

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