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Crônicas do Poty

13/12/2014 18:13

Histórias e mais estórias instigantes do Grande Cânion do Rio Poty: Seria um Pé Grande?

Há sempre algo excepcional quanto mais e mais adentramos naquele fantástico mundo belo e onírico do Boqueirão do Poty. É sempre assim, um grande aprendizado! Superados os imponderáveis climáticos, a poeira, o cansaço, logo brotam as surpresas que nos arrebatam com a força de um furacão. A regra manteve a escrita na última visita feita entre os dias 12 e 13 deste. Seguimos em comitiva, ainda nos primeiros raios do sol, da sede do Município de Buriti dos Montes – PI para a comunidade Conceição dos Marreiros, onde faríamos o fechamento dos festejos de Nossa Senhora com uma missa e um leilão. Capitaneando o grupo estava o Padre Chagas, profundo conhecedor da historia e glória do cristianismo.
Imagem: Benedito RubensRuan (à esquerda), Padre Chagas, Geisa, seu Júlio, Filho, Antônio (Safadão Produções)(Imagem:Benedito Rubens)Ruan (à esquerda), Padre Chagas, Geisa, seu Júlio, Filho, Antônio (Safadão Produções)
Na metade do caminho, localidade Miraíma, paramos para o deguste de um saboroso cafezinho no colégio do lugar. Foi quando a professora que nos recepcionou se reportou a mim com a seguinte informação: “Seu Rubens, o Josué (morador da localidade Baixa Cumprida, distando 6Km dali) contou-me que o seu tio viveu uma situação inusitada”. Discorreu ela, que o dito senhor vinha da fazenda Enjeitado, fincada às margens do rio Poty, na entrada oeste do poço do Canalão, em direção à sua casa situada na estrada que segue rumo à cidade de Castelo do Piauí, local conhecido por Olho D’Água da Pedra, aproximadamente a 20 km de distância da fazenda Enjeitado.

Era dia 03 de novembro, 7h, e seu Júlio, o tio do Josué, voltava do Enjeitado, onde nasceu e teria ido ali para acender velas aos seus antepassados. Pois vinha ele em sua burra pelas encostas do Poty, margem direita, entre a fazenda Carnaubal e os Piaus (povoado), na altura do poço dos Bois, quando ouviu o trote de um animal que seguia no sentido transversal, como se fosse cruzar o rio. Era uma veada grande, formosa e ofegante, já que vinha em desabalada carreira na tentativa de fugir de seu perseguidor.

Ao vislumbrar seu Júlio montado em sua burra, o gracioso animal deu uma brusca freada, alterando a rota para sua direita, enveredando pelos arbustos retorcidos existentes. Moto continuou, surge na cena o predador, o qual seguia no seu encalço em ruidosa correria. O homem ficou surpreso quando se deparou com um enorme macaco, que não percebeu a presença do sertanejo e sua montaria. A veada fez a volta e tomou o mesmo caminho por onde surgiu, acompanhada na mesma batida, pelo avantajado símio.

Disse ele, que ainda deu para ouvir o rasgar da caatinga serra acima, ocasionado pelo movimento dos dois animais. Ao subir o talude do rio, dirigindo-se ao local onde a cena se desenrolou, a burra refugou, como que com medo de se aproximar do caminho onde o misterioso macaco havia passado.

A história mexeu com todos os presentes, após agradecer calorosamente o inestimável serviço que a professora nos prestou, seguimos para o nosso destino. Ao passarmos pela casa do Josué, ali paramos para ouvir do mesmo, minúcias do acontecido. Também decidimos que, após a homilia, voltaríamos para Buriti dos Montes pela via de Castelo do Piauí, com o objetivo de ter com o seu Júlio e ouvir do próprio os detalhes dos fatos por ele vivenciados.

Logicamente, muitos questionamentos fluem quando nos deparamos com um advento tão incomum. Sabemos que não existe na região espécies de macaco com aquele porte, o maior que temos ali é o Bugiu ou Guariba (Alouatta fusca), que não possui hábitos carnívoros, pelo menos se sabe que eles não têm o hábito de alimentar-se de grandes mamíferos, como era o caso daquela veada. Segundo, seria aquele macaco uma espécie remanescente de uma época em que a região possuía condições edafoclimáticas muito diferente das atuais, com mais matas e abundância hídrica, incluindo aí animais da megafauna, datando da longínqua época do holoceno, há 10 mil anos atrás? Ou estaríamos frente a um primo dos tão decantados Pés Grandes, cuja notícia de aparição se dá em diferentes partes do globo: Himalaia, Rússia, Estados Unidos, Amazônia, e por aí vai.

O certo é o seguinte, é impossível duvidar da aparição vista por seu Júlio, devido ao fato de ser um fiel representante dos sertões de dentro, íntegro, ético e respeitado por todos. Se assim aconteceu, assim o foi.

Terminada a missa, o batizado, o leilão e os informes passados à comunidade, fomos todos para a residência do seu Luís Lero, que em festa estava pelo batismo de sua tenra cria, uma princesinha de poucos meses, e lá o banquete foi servido, simplesmente delicioso!

Sem embargo, após o cafezinho de praxe, deixamos aquele paraíso perdido nos rincões do cânion do rio Poty. A expectativa contagiava a todos dentro do automóvel à medida que nos aproximávamos da casa do seu Júlio Vieira Neto, 67 anos. Será que ele estaria lá, iria ele confirmar o acontecido? Que fatos novos ele nos confidenciaria?

Bingo!!!! Sorte!!!! Lá estava o ativo ancião à frente de sua linda residência, na labuta do dia a dia, ao lado de filhos e parentes próximos. Amarrada a um tronco de Ipê, salvo engano, encontrava-se sua vistosa burra e companheira fiel. De pronto, fomos recebidos e logo estava ele a contar a mesma história que ouvimos da dileta docente. Ele olhou para minha estatura e disse: “O bicho corria com as quatro patas, mais se ele se esticar, fica do tamanho do senhor”. Sobre as características do bicho: era peludo, cor de macaco, quer dizer: preto, com algumas rajadas. Detalhes do rosto: não foi possível notar, devido à grande quantidade de pelos.

Ao cabo da conversa, nos despedimos de todos os presentes, na certeza de termos comungado com mais uma narrativa fantástica, que só vem a enriquecer o cabedal de lendas, causos e fatos que fazem do cânion do rio Poty um dos santuários ecológicos mais referenciais do mundo.

Benedito Rubens Luna de Azevedo
Coordenador Municipal de Turismo de Buriti dos Montes
Dezembro de 2014


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