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CDP In Sampa

14/04/2012 00:40

Depois de passar por maus bocados, Juazeirense consegue obter sucesso em São Paulo

Na Expedição CDP In Sampa fomos até Ferraz de Vasconcelos, uma cidade da região metropolitana de São Paulo, para conversarmos com um empresário do ramo da construção civil nascido na Ipueira do Brasão, hoje município de Juazeiro do Piauí. Esse empreiteiro é Cícero Leite e a sua história é bem interessante.
Imagem: CDP In SampaCícero Leite(Imagem:CDP In Sampa)Cícero Leite
Tudo começou em 1991 quando Cícero viajou para Brasília a convite de um tio seu que morava por lá, conhecido pela alcunha de Maluco Beleza. Cícero foi para Brasília trabalhar com esse tio vendendo doces e balinhas em uma bicicleta nas portas das escolas. Durante um ano realizou essa atividade, acordando todos os dias às 3 horas da madrugada e somente retornando para casa no fim do dia. Depois desse período o vendedor de balinhas decidiu voltar para o Piauí para concluir o antigo 2º Grau e tentar uma sorte melhor.

Voltando para sua terra natal, Cícero foi estudar em Campo Maior e assim que concluiu o 2º Grau decidiu ir para São Paulo. O grande problema é que naquela época não existiam os ônibus de turismo, nas empresas convencionais a passagem era muito cara, avião nesse tempo não era nem cogitado. Em busca de realizar o sonho de mudar de vida no estado de São Paulo, Cícero “Cabelo de Ouro” como era conhecido entre os colegas, tentou arrumar dinheiro emprestado com um grande empresário castelense, hoje falecido. Esse empresário negou o empréstimo e Cícero ficou desconsolado. Mas como tinha o objetivo de ir para a cidade grande, assim como muitos amigos seus estavam fazendo, ele buscou uma solução doméstica e pediu dinheiro emprestado a sua tia e acabou conseguindo. Porém o dinheiro só dava praticamente pra pagar a passagem, nesse momento começou a saga desse grande batalhador.

A viagem em si já era de fazer qualquer um desistir, com pouco dinheiro, tinha que se contentar com uma das refeições diárias, ou almoçava ou jantava. Assim após 56 horas de viagem, Cícero chega à São Paulo, trazendo na bagagem, nada mais que poucas roupas e muita esperança. Esperança essa que contrastou com uma dura realidade. Cícero foi pra casa de um tio que estava desempregado, todos os dias os dois saíam de madrugada em busca de emprego, porém as coisas naquele tempo (1993) eram bem mais difíceis, o país passava por uma recessão muito forte, havia uma hiperinflação e ao invés de geração de empregos o que se via era muita demissão. Mesmo assim Cícero não desistia, muitas vezes tinha que passar por baixo da catraca na estação do trem e descer pela entrada dos ônibus para não pagar a passagem, pelo simples fato de não ter com que pagar.

Depois de muito penar, Cícero Leite consegue um emprego de vigilante em uma obra, com isso a situação melhorou um pouco, já era possível comprar farinha e miúdos de frango, pena que o salário só foi pago no primeiro mês de trabalho, nos três meses seguintes, Cícero trabalhou somente pela cesta básica e o pior ainda estava por vir, depois desses três meses, nem a cesta ele recebia. Cansado de trabalhar sem receber, pede demissão do subemprego e resolve viajar para Ferraz de Vasconcelos, para a casa de um amigo chamado Pedro Torres.

Para chegar a Ferraz de Vasconcelos, Cícero passa por mais uma situação vexatória. Como não tinha o dinheiro para pagar a passagem, pediu carona ao motorista do ônibus, uma alma bondosa que disse pra ele: --Pode entrar, levo você de graça, se o fiscal da empresa aparecer pago sua passagem --, Cícero disse que nunca se esqueceu dessas palavras do motorista que o levou para Ferraz.

Foi na cidade de Ferraz de Vasconcelos que a vida veio sorrir para o jovem batalhador. Lá conseguiu emprego de servente de obra e conheceu sua esposa, a piauiense de Pedro II, Sílvia, com quem teve três filhos, um paulista, o mais velho Luan, a do meio, a baiana Luma e a mais nova, nascida em Teresina, a pequena Lara de dois meses de idade.

Imagem: PessoalClique para ampliarCícero Leite ao lado da esposa, Sílvia(Imagem:Pessoal)Cícero Leite ao lado da esposa, Sílvia
Como empregado em empresa de construção civil, Cícero passou de servente a encarregado, soube aproveitar o momento em que as grandes construtoras passaram a terceirizar mão de obra e decidiu abrir uma empresa e se tornar empreiteiro. Mas nem tudo ainda seriam flores na vida desse batalhador. A falta de experiência como empresário, o excesso de confiança em algumas pessoas e o deslumbramento com a mudança de vida fizeram com que a empresa falisse.

Mesmo passando por dificuldades, Cícero enxergava nesse ramo a sua ascensão e abriu uma nova empresa, mas decidiu que agora seria diferente. “Hoje acompanho melhor minhas obras, controlo tudo dentro da empresa, as entradas e saídas. Faço acompanhamento dos alojamentos, para que os trabalhadores tenham um lugar decente pra ficar, em todas as inspeções que o Ministério do Trabalho faz em nossos alojamentos somos elogiados. Tenho que viajar bastante para acompanhar obras em Fortaleza, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, além das que tenho em São Paulo e Rio de Janeiro, mas isso faz com que as coisas andem direito e graças a Deus, tenho tido bons resultados”, declarou.

Para Cícero Leite, o ramo da construção civil passa por uma fase jamais vista no Brasil. “As dificuldades pelas quais passei dificilmente alguém passaria hoje. Com a expansão da construção não falta emprego e bons profissionais são disputados e bem remunerados. Tenho pedreiro que chega a ganhar quase 8 mil reais por mês, trabalhando por produção, um excelente salário. Hoje é quase um consenso entre os empreiteiros que a melhor mão de obra é dos nordestinos. Posso citar até um fato interessante, já fui servente de um pedreiro que hoje trabalha comigo”, disse.

Cícero Leite já começa a preparar seu retorno para o Piauí, inclusive a esposa e filhos já estão morando em Teresina. O empresário diz que jamais esqueceu o seu torrão natal, mas não esconde a admiração por São Paulo, apesar de tudo que passou, foi lá que conseguiu o que tem hoje, mesmo assim o pensamento é de vir morar no Piauí. “Além de gostar muito do Piauí, outras razões contribuem para minha volta. Uma delas é a saúde da minha filha do meio. A Luma tem problemas respiratórios e sempre apresentou crises severas em São Paulo, fizemos de tudo para que ela melhorasse, mas comumente ela era internada em virtude desses problemas. Em uma dessas consultas o médico foi claro e disse que ela só teria uma melhor qualidade de vida e o afastamento das crises se deixasse de morar em São Paulo. Depois que veio morar no Piauí ela não apresentou nenhum problema” disse o empresário, visivelmente emocionado ao se referir ao problema da filha.

“Outra coisa a se pensar é no estudo dos filhos, o Piauí tem uma boa educação, escolas excelentes. Em São Paulo, mesmo as escolas particulares mais caras não são tão boas como no Piauí. Meus filhos estudam em boas escolas e quero que tenham um futuro diferente do meu, que consigam subir na vida sem precisar sair do Piauí”, concluiu.


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